
As entrevistas coletivas nunca mais serão as mesmas depois de Paulo Autuori e Mário Sérgio, que estiveram no mesmo período no Grêmio e no Internacional, respectivamente. Um parece que vai dormir e outro parece que não dormiu direito. O ex-técnico do Grêmio era agressivo com ironias contra a imprensa: "Vocês por exemplo que nem o diploma vale mais..." O interino Colorado cospe ameaças: "Vocês querem guerra! Eu quero pau, eu quero isso!".
Paulo Autuori demonstrou coerência entre o discurso e o trabalho. Tinha um esquema de jogo, brigou com ele até o fim, não conseguiu o sucesso que ele esperava. Já estava planejando a pré-temporada em Bento Gonçalves como todo bom "gestor de futebol". Mas não teve coragem de enfrentar a última janela com a imprensa. Convocou uma conferência e deu um prazo de 48 horas para tentar definir um impasse entre a razão e a emoção. Deu a entender que o coração queria o Grêmio, mas o mais sensato seria aceitar a proposta milionária. Alguns minutos depois, o coração já não batia mais no Olímpico. Estava fora pela porta dos fundos e a diretoria anunciou o interino Marcelo Rospide.
Mário Sérgio deveria ter assumido o Internacional logo após a queda de Tite. Mas não. A equipe perdeu a referência de um treinador. Surgiu no vestiário um companheiro de D'alessandro que entende as revoltas do argentino, um novo modelo de comando de time de futebol. A cada jogo um esquema, a cada partida uma escalação e quem for destaque no time, corre o risco de não começar a próxima partida. O sistema de trabalho de Mário Sérgio é tão secreto que até mesmo quando ele explica, ninguém entende. O Andrezinho já jogou no ataque e na lateral. O Alecssandro sai da área para buscar jogo e o Fabiano Eller estava na lateral esquerda. Sem falar do garoto Marquinhos que já teve que assistir Allan Kardec, Bolaños e o próprio Andrezinho no time no lugar dele que joga bem mais que todos eles juntos. Se pensa diferente, que faça com convicção, treino aberto e encarando a reportagem. O Internacional está sem um treinador convencional.
O que existe é um extraterrestre no Beira-Rio, assim como havia um técnico no mundo da lua no Olímpico. A cada coletiva era uma Jornada nas Estrelas. E esta rivalidade Gre-Nal que alimenta a curiosidade geral não pode ser refém de perguntas macias, comentários doces quando os objetivos não são alcançados. A cobrança faz parte do amadurecimento de qualquer profissional. O debate é livre. A sala de conferência está lá todo o dia pronta para mais uma coletiva. Vale criticar a imprensa, reclamar, argumentar, ironizar. Mas quem critica também tem que saber ouvir as críticas.
O jornalismo é assim: está sempre procurando um motivo para a tragédia, para o sucesso, para o fracasso, para a vitória. Não apenas retrata os fatos, mas questiona, interpreta e até distorce muitas vezes. É um exercício diário sob julgamento do público. E diante do público, da torcida, não somos nada quando não aceitamos a crítica, a vaia e a cobrança. Mas as coletivas nunca mais vão ser iguais como até hoje no Olímpico e no Beira-Rio.





